segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Sussurro - Cap.01 - Part.01

Entrei no laboratório de biologia e meu queixo caiu. Lá estava, misteriosamente grudada no quadro-negro, uma boneca Barbie. Devidamente acompanhada por Ken. Os dois tinham sido postos de braços dados e estariam completamente nus, não fossem as pequenas folhas artificiais colocadas em alguns lugares estratégicos. Rabiscado em giz cor-de-rosa, sobre as cabeças dos dois, lia-se:

  " BEM VINDOS Á REPRODUÇÃO HUMANA (SEXO) "

- É por essas e outras que a escola proíbe celulares com câmeras - disse Vee Sky ao meu lado. - Bastariam umas fotos disso no eZine e eu conseguiria que o conselho de educação eliminasse a biologia do currículo. Aí a gente poderia ocupar o tempo com algo realmente útil, como ter aulas particulares com caras gatos das turmas avançadas.
- Cosso assim, Vee? - falei. - Podia jurar que você tinha passado o semestre inteiro doida pra estudar essa matéria.
 Vee apertou os cílios e abriu um sorriso perverso.
-  Aqui ninguém vai me ensinar nada que eu já não saiba.
- Mas seu nome não começa com V... de virgem?
- Fale baixo.
Ela deu uma piscadela bem na hora em que o sinal tocou, obrigando-nos a ir para nossos lugares, que ficavam lado a lado em uma carteira dupla.
 O técnico McConaughy agarrou o apito que pendia de uma corrente em seu pescoço e soprou.
- Equipe, sentar!
Para o técnico, ensinar biologia às turmas do ensino médio era uma bico para complementar a renda de seu emprego como treinador de um time universitário de basquete. Todo mundo sabia disso.
- Talvez não tenha passado pela cabeça de vocês que o sexo é mais do que um passeio de 15 minutos do banco atrás de um carro. É uma ciência. E o que é ciência?
- Uma chatice! - exclamou um garoto no fundo da sala
- A única matéria em que estou levando pau - disse outro.
Os olhos do técnico percorreram a primeira fila e pararam em mim.
- Nora?
- É o estudo de alguma coisa - falei.
Ele se aproximou e bateu com o indicador na mesa à minha frente.
- O que mais?
- É o conhecimento adquirido pela experimentação e pela observação.
Que beleza. Agora parecia que eu estava fazendo um teste para a versão em áudio do nosso livro escolar.
- Nas suas palavras.
Toquei meu lábio superior com a ponta da língua e tentei encontrar outras palavras.
- Ciência é uma investigação... - acabou soando como uma pergunta.
- Ciência é uma investigação. - disse o técnico, esfregando as mãos. - A ciência exige que a gente se transforme em espiões.
Explicada dessa maneira, a ciência até parecia divertida. Mas eu já estava na turma do técnico havia tempo suficiente para não alimentar qualquer ilusão.
- É necessária muita prática para se realizar um bom trabalho de detetive - ele prosseguiu.
- O sexo também exige também muita prática - comentou outra pessoa do fundo da sala.
Todos tentamos conter o riso enquanto o técnico apontava um dedo de advertência na direção do malfeitor.
- Esse não vai ser o dever de casa de hoje. - O técnico voltou-se novamente para mim. - Nora, você se senta com Vee desde o início do ano.
Assenti com um gesto de cabeça, mas tinha um palpite sobre o rumo que o assunto tomaria.

sábado, 10 de novembro de 2012

Sussurro - Prólogo

                                                      Vale do Loire, França
                                                        Novembro de 1565

Chauncey estava com a filha de um lavrador na relva ás margens do rio Loire quando a tempestade se aproximou. Por ter deixado sua montaria perambular pela campina, ele não tinha opção a não ser voltar para o castelo com os próprios pés. Arrancou uma fivela de prata do sapato, colocou-a na palma da mão da moça e observou enquanto ela se afastava correndo, a barra da saia imunda de barro. Em seguida, calçou as botas e partiu para casa.
 A chuva desabava pelos campos cada vez mais escuros nos arredores do Château de Langeais. Chauncey caminhava com segurança sobre os túmulos afundados e as folhas podres do cemitério. Mesmo na neblina mais espessa ele conseguia achar o caminho de volta, e não tinha medo de se perder. Não havia neblina naquela noite, mas a escuridão e a crueldade da chuva já criavam dificuldades suficientes.
 Chauncey captou um movimento com o canto do olho e voltou bruscamente a cabeça para a esquerda. Oque á primeira vista parecera ser uma enorme estátua coroando uma sepultura próxima ergueu-se majestosamente. Não era feita de pedra, nem de mármore. O garoto tinha braços e pernas. O peito estava despido, os pés, descalços, e calças de camponês pendiam abaixo da cintura. Ele desceu da lápide com as pontas dos cabelos negros encharcados pela chuva pingando. As gotas desciam por seu rosto, que era tão moreno quanto o de um espanhol.
 A mão de Chauncey dirigiu-se ao punho da espada.
- Quem está ai?
A boca do jovem esboçou um sorriso.
- Não brinqueis com o duque de Langeais - avisou Chauncey. -Perguntei seu nome. Dize-o.
- Duque? - O rapaz apoiou-se no tronco sinuoso de um salgueiro. - Ou bastardo?
 Chauncey desembainhou a espada.
- Retirai o que dissestes! Meu pai foi o duque de Langeais. Eu agora sou o duque de Langeais - acrescentou, amaldiçoando-se pela maneira desajeitada como dizia aquilo.
 O jovem sacudiu a cabeça de vagar.
- Vosso pai não era o velho duque.
Chauncey enfureceu-se diante de um insulto tão ultrajante
- E vosso pai? - questionou, estendendo a espada. Ainda não conhecia todos os seus vassalos, mas estava aprendendo. Guardaria na memória o sobrenome do rapaz. - Vou perguntar mais uma vez - disse em voz baixa, passando a mão no rosto para tirar a água da chuva. - Quem sois vós?
 O jovem aproximou-se e afastou a lâmina para o lado. Subitamente, parecia mais velho do que Chauncey supunha, talvez até mesmo um ou dois anos mais velho que o próprio Chauncey.
- Sou da prole do demônio - respondeu.
 Chauncey sentiu uma onda de medo invadi-lo.
- Vós sois completamente lunático - disse entre dentes. - Saí de meu caminho.
 O chão cedeu sob os pés de Chauncey. Chamas douradas e vermelhas apareceram diante de seus olhos. Encurvado, com as unhas fincadas nas coxas, ele elevou o olhar para observar o garoto, piscando e arfando, esforçando-se em compreender o que se passava. Sua mente vacilava como se não estivesse mais sob seu controle.
 O rapaz agachou-se para que seus olhos ficassem na mesma altura dos de Chauncey.
- Escutei com atenção. Preciso de um favor vosso. Não partirei até consegui-lo. Vós me compreendeis?
 Rangendo os dentes, Chauncey sacudiu a cabeça para exprimir descrença - e desafio. Tentou cuspir no jovem, mas a saliva escorreu pelo queixo. A língua recusava-se a obedecer-lhe.
 O jovem envolveu as mãos de Chauncey nas suas. O calor era causticamente e o duque soltou um grito.
- Preciso de vosso juramento de fidelidade - disse. - Ajoelhai e jurai ser meu servo.
Chauncey quis soltar uma gargalhada grosseira, mas sua garganta se fechou e o som foi sufocado. O joelho direito dobrou-se como se estivesse recebido um chute por trás, mas não havia mais ninguém ali. Chauncey desabou na lama. Virou-se de lado e vomitou.
- Jurai - repetiu o rapaz.
O calor queimava o pescoço de Chauncey. Ele precisou de toda a sua energia para cerrar levemente os punhos. Riu de si mesmo, mas não havia graça. Não sabia como era possível, mas a náusea e a fraqueza que o dominavam provinham do jovem. Não se livraria daquilo se não prestasse o juramento. Ele diria que o precisava dizer, mas jurou no fundo de seu coração destruir o jovem para se vingar da humilhação.
- Senhor, torno-me vosso servo - disse Chauncey, malignamente.
O rapaz pôs Chauncey de pé.
- Encontrai-me aqui no início do mês hebreu do Cheshvan. Precisarei de vossos serviços nas duas semanas entre a lua nova e a lua cheia.
- Quase uma... quinzena? - o corpo inteiro de Chauncey tremia sob o peso de sua ira. - Sou o duque de Langeais!
- Vós sois um nefilim - disse o jovem com um meio sorriso.
 Chauncey tinha um xingamento na ponta da língua, mas o engoliu. As palavras seguintes foram pronunciadas com fria perversidade.
- O que acabaste de dizer?
- Vós pertenceis à raça bíblica nefilim. Vosso verdadeiro pai foi um anjo expulso do céu. Metade de vosso sangue é mortal -  os olhos escuros do rapaz se ergueram, encontrando os de Chauncey -, metade é de anjo caído.
Das profundezas de sua mente, Chauncey voltou a ouvir a voz de seu tutor, lendo trechos da Bíblia que falavam de uma raça degenerada, fruto da união carnal de anjos expulsos do céu e mulheres mortais. Uma raça temível e poderosa.
 Um arrepio que não era inteiramente de repulsa atravessou Chauncey.
- Quem sois vós?
O rapaz se virou e começou a se afastar. Embora Chauncey quisesse segui-lo, não conseguiu obrigar as pernas a aguentarem o próprio peso. Ajoelhado ali, com os olhos fustigados pela chuva, viu duas cicatrizes largas nas costas nuas do jovem. Elas se aproximavam, formando um V de cabeça pra baixo.
- Vós sois... caído? - perguntou. - Tivestes asas arrancadas, não?
O rapaz, anjo, sei lá quem fosse, não se virou. Chauncey não precisava de uma confirmação.
- O serviço que vos devo prestar - gritou -, exijo saber do que se trata!
O riso grave do jovem ecoou pelo ar.